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Exílio

April 25, 2023 Teresa Tomaz

Tenho sete anos. Pego em todos os meus lápis de cor, afio-os e disponho-os sobre a mesa. Os corpos lânguidos têm nomes: o vermelho é o Gonçalo, o amarelo é a Vanessa, o azul é a Adriana, o verde é o João. São os nomes dos meus colegas de escola. Gosto do Gonçalo, atribuo-lhe a cor do coração. A Vanessa tem o cabelo amarelo. A Adriana é a minha melhor amiga, o azul é a minha cor preferida. O João empurrou-me na escola e disse que tinha os dentes grandes, por isso designo-lhe a cor que menos gosto. O cheiro a tinta e a terbentina lembram-me a primavera, a mesma primavera que existe nos quadros que o meu avô, sentado a meu lado, cria. Observo a forma como ele segura o lápis preto sobre a tela branca, os ossos das hidrângeas que serão vestidos com combinações como as que a minha avó usa quando sai para comprar carne ou para conversar com os vizinhos. O meu avô pinta tal como um alfaiate tira medidas aos seus clientes, é meticuloso, apaga linhas, recria-as, usa fotografias como referência, ajusta os óculos, limpa-os, leva o dedo à boca e humedece o pincel, mistura tintas, pousa os instrumentos quando a campainha toca e entra um freguês, boa tarde, vinha tirar um retrato tipo passe, trago uma fotografia da minha mãe para retocar, quanto custa uma sessão de carnaval?

A porta da casa dos meus avós é de vidro e solta um murmúrio contrariado quando a abrimos. A princípio, custa-me fazê-lo, a porta é pesada e o meu corpo ainda é pequeno. Distribuo impressões digitais na superfície brilhante, mas a minha avó nunca me ralha, pega num pano e limpa-as, sempre fui pobre mas limpa, repete. Os meus avós vivem numa casa estreita que tem dois andares e, nas décadas vindouras, conhecer-lhes-ei várias ocupações, florista, fotógrafo, cozinheira num restaurante, dono e dona de uma loja de produtos artesanais. Mas serão as flores e as fotografias que perdurarão na minha memória, dispostas no primeiro andar, onde passarei a infância e a adolescência. A casa tem muitas escadas que rangem quando as pisamos. No primeiro andar existe uma prateleira onde uma estátua de São Bento da Porta Aberta descansa, o rosto virado para a porta de vidro escancarada, os transmontanos são como os bracarenses, não sabem fechar portas, repete a minha avó enquanto varre a sua parcela de rua. No Natal, o meu avô coloca ao lado da estátua um menino Jesus, e durante anos acreditarei que aquele santo pertence ao presépio, desafiando o rosto incrédulo da catequista.

Os meus avós vivem no segundo andar. Escadas de madeira separam o negócio da intimidade do lar. Há quadros pendurados por toda a casa, paisagens de Trás-os-Montes, campos de trigo e de centeio onde mulheres vestidas de preto se curvam, o peso do sol nos seus ombros. Há flores, muitas flores: germânios, gerberas, miosótis, girassóis, flores cujo nome desconheço e cujos caules a minha avó enfia em esponja verde ou enlaça com uma fita decorativa, criando ramos que mulheres jovens apertarão nos altares das igrejas, grinaldas onde mulheres viúvas apoiarão os corpos dobrados, o orvalho substituído por lágrimas. Quando termino de criar histórias com os lápis, subo ao segundo andar e ponho-me a ver desenhos animados, escondo-me atrás do sofá, não atazanes o juízo ao cão, empoleiro-me na varanda e ouço o rumor da cidade, os passos na calçada, as rodas dos carros, as conversas entre comerciantes e fregueses, o arrulho das pombas, cuidado, não te inclines tanto, ainda cais. Às vezes, um camião de mercadorias desce a rua, tremem os candeeiros, os vidros das janelas, o chão, e a minha avó, indiferente, continua a mexer nos tachos, intercalando um já vai quando outro cliente chega, desliga o lume, desce as escadas e pergunta o que deseja.

Escrevo no presente, mas faz tudo parte do passado.

Cresci nesta casa até completar dezoito anos e mudar-me para Lisboa. O visão do meu avô começara a falhar e os sinos do Sé de Braga repicavam-lhe nos ouvidos, é um zumbido que não se pode, parece que está uma máquina a trabalhar cá dentro, queixava-se. Vieram as crises nacionais, europeias, mundiais, as Troikas, os políticos, mas ambos continuaram a trabalhar e a viver naquela casa. As articulações da minha avó inchavam com o calor e com o frio, deixou de descer as escadas, depois custa-me a subir. No rés-do-chão, o meu avô confundi-a contas de somar com subtrair, a multiplicação com a divisão, a cabeça já não é o que era, suspirava, a porta de vidro deixava entrar o ar gelado do inverno e plantava-lhe uma tosse húmida no peito. Algumas pessoas voltavam para trás, enganou-se, senhor, deu-me dez euros a mais, outras metiam as notas e as amêndoas ao bolso.

O meu avô fechou a porta do negócio com 87 anos. Venceram-no a pandemia, a ausência de pessoas na rua, as obras na estrada, os ouvidos que zumbiam e as pernas que pareciam arrastar-se. Começou a cair, primeiro em casa, depois na calçada. Era perigoso. A minha avó varreu os três andares com os pulsos enfaixados em anti-inflamatório e aguardente, encaixotou os livros e os quadros, ofereceu móveis, guardou a máquina de costura que a mãe lhe deixou e despediu-se dos gatos vadios que habitavam as traseiras do prédio, chorou por eles, foi a única despedida que a fez chorar, pobrezinhos, abandonados, a vida foi madrasta para mim, só os animais percebem. Mudaram-se para a casa da filha emigrada, um rés-do-chão num apartamento longe do centro da cidade, onde, na velhice, eram obrigados a viver. Quando os visito, a minha avó costuma dizer que vivem no exílio. Chegas a uma certa idade e é como se também emigrasses, o teu corpo é estrangeiro, os velhos morrem e ninguém quer saber deles, olha quantos morreram na pandemia, agora estão debaixo de terra, é o que nos espera. Uma vida inteira guardada nos caixotes, acaba tudo, a vida sempre foi madrasta para quem nasceu no tempo de Salazar, antes não se tinha nada, era uma miséria, agora a miséria é diferente, mas ainda há, só que é mais escondida.

Quando terminei a leitura de “Misericórdia”, de Lídia Jorge, lembrei-me do dia em que entrei pela última vez na casa dos meus avós. Há um capítulo que releio de vez em quando, “Punhos de Pelúcia.” Nesse capítulo, Maria Alberta, a mulher que reside no Hotel Paraíso, recorda o que deixou em casa e do que se despediu.

Despedi-me da sombra da casa, dos seus corredores, dos móveis, dos aparadores, das fotografias.

Volto a 2020. Demoro-me em certos locais da casa: a varanda das traseiras, o balcão da cozinha, a sala, a claraboia decrépita, a estante vazia, o quarto de fotografar, o quarto das flores, a mesa de trabalho. Observo a forma como a luz desenha um padrão único no papel de parede, lembra-me o traço preciso do meu avô. Quero conservá-lo na memória, este rendilhado luminoso que continuará a pousar nestas paredes mesmo após o exílio dos meus avós, quando já não viver cá ninguém, quando entrarem novos residentes nesta casa, quando substituírem o chão, quando a encherem de móveis suecos ou a transformarem noutro negócio, talvez um alojamento local. Fotografo a casa com o telemóvel e a minha Canon AE-1, filmo-a, nas imagens aparecem os rostos dos meus avós e do meu namorado ocultados por máscaras cirúrgicas, procuro a sombra de quem aqui viveu, onde dei os primeiros passos, onde disse as primeiras palavras, onde criei histórias com lápis de cor, onde adoeci, onde vi super-heróis derrotando vilões e vice-versa, onde aprendi a gostar de gatos, onde cresci.

Penso no exílio dos meus avós, do que se terão despedido quando, voluntariamente, decidiram que era melhor abandonarem a casa onde viveram cinquenta anos. Pergunto-me se, tal como Maria Alberta recorda o jardim da sua casa, a minha avó também pensa nos gatos que vagueiam nas redondezas da casa. Ter-se-ão despedido do cheiro a tinta, a madeira e a pó, ter-se-ão despedido das escadas, das cómodas, das faturas antigas, das caixas de rolos fotográficos vazias, dos blocos de notas, dos cadernos onde eu fazia rabiscos e escrevinhava poemas infantis, dos utensílios de cozinha partidos, do sótão poeirento, da antena de televisão que teimava em não funcionar, das carpetes que os faziam escorregar, dos objetos que os filhos deixaram para trás, dos dedais que pertenceram à minha bisavó? Na casa onde vivem agora, desprendem-se do que possuíram.

Não há mais nada que seja só meu, nem o meu corpo, nem o meu espírito.

Sei que falarei muitas vezes sobre os meus lápis de cor na mesa de trabalho do meu avô e sobre os arranjos de flores da minha avó. Mas eles já não falam nisso. Falam sobre as próprias infâncias, os problemas atuais do país e do mundo, procuram responsáveis, nem sabem bem do quê, se é culpa da esquerda, do centro ou da direita, a televisão sempre ligada, mas sem som, não vale a pena ouvir, dizem todos a mesma coisa. Às vezes, parece que os ouço dizer

o exílio vive para sempre dentro de nós.

In memoir
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Até que a morte nos separe

February 16, 2023 Teresa Tomaz

Alguém pede permissão para mudar de canal. É hora de almoço, abrem-se os recipientes com a comida. Um ovo rebenta dentro do micro-ondas, é preciso limpar a gordura encrustada para que o peixe não ganhe o sabor da carne e vice-versa. Olho para as batatas ressequidas no prato, misturo-as com o azeite e os brócolos, concordamos que é melhor mudar o programa, ninguém quer ouvir três ou quatro apresentadores debater sobre pais e mães que matam filhos, filhos que roubam mães e pais, professores que assediam alunos, facadas em discotecas, facadas em ruas, facadas em todo o lado. Chove muito, mas Braga é o penico do céu, é normal, o pior são os esgotos, os buracos no asfalto, ruas intransitáveis, cheias de lama, e nós a pagar os aviões, os bancos. O cheiro da pescada cozida impregna a copa, alguém aponta para o ecrã,

olhe, não é a sua terra?

Uma mulher com galochas abana os braços que parecem não lhe pertencer, abandonados numa dança cansada, é um desespero, diz, trabalhamos uma vida e vêm as cheias causar prejuízo, é assim todos os anos. A imagem muda, a ponte romana em grande plano, depois as caldas, a água lambendo os passeios, o campo de ténis, o parque infantil. Fecho o recipiente da comida, avisam-me que o motorista chegou, hoje temos duas consultas domiciliárias. Entramos no carro sem pressa, não há guarda-chuva que nos proteja da água impiedosa. Então, quando foi a última vez que foi à sua terra, pergunta-me o motorista. Respondo algo vago, antes do natal, já não sei bem quando foi.

E quando volta?

Abandonamos a estrada principal e enveredamos por caminhos de pedra, os campos cultivados e por cultivar mancham a terra de várias tonalidades de verde, amarelo e laranja. Há casas modernas, casas decrépitas e casas abandonadas, um manto de retalhos que não imaginava que existisse a pouca distância da cidade. Ao longe, o rio. Sei que está ali, e isso, de certa forma, reconforta-me. Sempre vivi em cidades com rios, fazem-me falta, da mesma forma que o mar faz falta a quem se habituou a observá-lo pela manhã, a temê-lo à tarde e a ouvi-lo ressonar à noite. À medida que percorremos estes campos, apercebo-me que procuro, nesta paisagem, algo que me recorde a da minha terra, como se enfiasse os dedos na terra e escavasse até encontrar raízes, as finas ligações invisíveis que nutrem as almas das árvores. De vez em quando, noto um cheiro a fumo, a brasas, e isso transporta-me para a infância, para a aldeia perdida dos meus avós, para as festas da cidade.

E quando volta?

A pergunta fica tatuada na pele, debaixo da roupa, como versos invisíveis que carrego para todo o lado.

***

Até quando pertencemos a um lugar?

***

Em 2018, escrevi, neste blogue, um artigo sobre os livros que consolidaram a minha decisão em tornar-me profissional de saúde, como se os livros fossem as vigas que suportam o que Susana Moreira Marques designa como “aquilo a que os antigos chamavam alma.” Não voltei a atualizar esse artigo, mas, se o fizesse, sei que “Agora e na Hora da Nossa Morte” figuraria entre os selecionados, a sua capa roxa entre as restantes lombadas coloridas. Quero acreditar que não é coincidência que a minha cor preferida seja a mesma que foi usada nesta edição da Tinta da China.

É estranho imaginar que muitos dos livros que me inspiraram a escolher a especialidade de medicina geral e familiar sejam os que abordem os cuidados paliativos. Não exerço funções numa equipa que presta estes cuidados, não tenho formação específica (apenas generalista) nesta área. Mas, se “Ser Mortal”, de Atul Gawande, se revelou uma celebração da vida, um reconhecimento de que o ato médico vai muito mais do que curar, “Agora e na Hora da Nossa Morte” é um retrato da vida e da morte numa região que procuro conservar na memória. Com este livro, Susana Moreira Marques contribui para preservar a memória coletiva de estradas estreitas, paisagens, montes, montanhas, planaltos e, no centro, as pessoas, os transmontanos. Na primeira parte, “Notas de Viagem sobre a Morte”, a autora escreve sobre a vida, a morte, os profissionais de saúde, os doentes, as pessoas. Escreve também sobre a região. As aldeias de Trás-os-Montes parecem abandonadas, há um isolamento palpável, diferente daquele que as pessoas percecionaram na pandemia, um isolamento entranhado nas roupas escuras, no granito, nas casas frias, nas mãos sobre os lenços que escondem cabelos prateados. Escreve sobre quem pousa as mãos sobre regaços cansados em alpendres vazios e sobre os profissionais que visitam esses alpendres, levando medicamentos, conselhos, palavras e silêncio, porque saber ouvir é, como sabemos, mais do que estar calado.

“Agora e na Hora da Nossa Morte” é um livro real, escrito com uma sensibilidade ímpar. Sempre que o releio, encontro uma frase que, antes, me passou despercebida, ou descubro novos sentidos, faço novas interpretações. Às vezes, releio as histórias do senhor João e da dona Maria, da Elisa e da Sara, da Paula. Penso, então, nas Paulas da minha vida, nos senhores e donas de tantos nomes, nas Elisas, nas Saras. É difícil não questionarmos se devíamos ter feito mais. Se o que fazemos é suficiente. Volto às suas histórias como quem volta a casa. Volto porque procuro respostas e porque preciso de renovar perguntas.

Volto porque voltamos sempre aos livros que nos ajudam, aos livros das nossas vidas.

***

No verão, quando os dias são longos e o desaparecimento do sol me acompanha no caminho de regresso a casa, tento conduzir mais devagar. Abro a janela, coloco um CD no carro (sim, ainda sou dessas pessoas, as que acumulam capas de álbuns partidas, discos trocados, a personificação da desorganização musical), escolho a “Posing for Cars” dos Japanese Breakfast ou a “Sun Forest” de Nick Cave and the Bad Seeds e ponho-me a olhar o céu arroxeado, um céu semelhante ao que Susana Moreira Marques descreveu. E a resposta vem-me com clareza, as palavras crepitam na garganta fechada, o corpo parece insuficiente para conter todas as impressões.

Até quando pertencemos a um lugar?

Até que a morte nos separe.

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