• Blog
  • Shelves
  • Contacto
  • Sobre
Menu

Pick a Shelf

Street Address
City, State, Zip
Phone Number

Your Custom Text Here

Pick a Shelf

  • Blog
  • Shelves
  • Contacto
  • Sobre

Lealdade

January 15, 2024 Teresa Tomaz

A amizade assenta no pressuposto da reciprocidade, de entrarmos e sairmos das vidas uns dos outros, com momentos passageiros de frenética intensidade.

“Lealdade”, Hua Hsu, Relógio D’Água

Foi na cozinha que a minha avó paterna me brindou com uma das suas primeiras lições. Eu tinha acabado de chegar da escola e trazia os bolsos carregados de pulseiras de rebuçados e caramelos amanteigados. Todos os dias, eu e as minhas amigas saíamos da escola, dirigíamo-nos ao café da esquina e comprávamos gomas e doces que se colavam aos dentes. Dividíamos a comida e o dinheiro, guardando uma ou outra moeda para uma novidade, e enchíamos sacos de plástico, deleitadas. Nessa tarde, recusei o lanche que a minha avó me preparara. A luz da tarde acentuava os contornos do pão fresco barrado com manteiga dos Açores, a minha preferida. Um carreiro de poeira brilhava entre nós, e havia silêncio, um silêncio de palavras apenas interrompido pelo zumbido da chaleira e do forno constantemente ligado, onde batatas navegavam mares de azeite e contornavam um bacalhau que seria servido ao jantar.

A minha avó colocou-me o pão nas mãos e ordenou-me que o comesse, não se desperdiça comida nesta casa por causa de excessos e caprichos, muito menos por porcarias cheias de corantes e de plásticos, para a próxima já sabes que o dinheiro não se gasta em doces. Não protestei. Ia eu a meio da segunda ou terceira dentada quando a minha avó sentenciou algo que repetiria ao longo dos anos, com convicção.

Essa coisa dos amigos é uma farsa. Não há amigos nem amigas. Nesta vida, somos nós, e acabou. Os amigos desaparecem, vão e vêm, e quando cresceres vais perceber que a amizade é uma coisa que pertence à infância e que os adultos não têm amigos. Temos família, temos maridos e mulheres, mas não existem amigos.

A minha avó conhece a arte de exagerar com dramatismo, por isso, não atribuí muita importância à sua lição. Não imaginava a minha vida sem amizade. Achava, então, que cada pessoa que eu conhecia ficaria na minha vida para sempre. Nunca nos separaríamos e, se isso acontecesse, já que teríamos de abandonar a cidade para estudar ou trabalhar, então manteríamos sempre contacto. Abdicaria de todas as guloseimas por esta certeza.

Até aos dezoito anos, construí amizades que foram importantes e insubstituíveis. Ainda hoje acredito que travei, na infância e na adolescência, contactos singulares e especiais, que ficaram na minha memória como uma presença indelével nos recônditos da minha essência. Mas não foram fáceis de conseguir. Eu era muito tímida, sensível aos comentários mais depreciativos e facilmente entristecia com pormenores sem importância. Era muito consciente de mim própria e de todas as imperfeições, como qualquer adolescente, e tentava domar a rebeldia do cabelo para não ser notada. Não era popular, mas também não era excluída. Eventualmente, consegui integrar o meu grupo de amigos, que consistia na minha turma da escola. Em 2006, acabara de ver uma série de animação japonesa chamada “Honey and Clover”, uma história sobre crescimento, amizade, amor e, sobretudo, sobre um grupo de amigos que acaba por se separar, não por aborrecimentos, mas sim porque a trajetória deles chega ao fim. Tracei um paralelismo com a minha vida, usei um programa embrionário de edição de vídeo e elaborei um vídeo sobre a minha turma com a música da série. Chorei muito na despedida e na transição para a vida universitária. Sabia que me separava das pessoas que me reconheciam como Teresa, a miúda que gosta de ler, de séries japonesas e da banda Placebo, e que seria obrigada a conhecer outras pessoas, que nada sabiam de mim. E, sobre o meu cabelo indomável, pairava a sentença da minha avó: a amizade é uma farsa.

(…) o que impulsiona a amizade não é a busca de alguém que seja exatamente igual a nós. Um amigo, escreveu ele, “escolhe conhecer em vez de ser conhecido. Eu sempre achara que era ao contrário.”

“Lealdade”, Hua Hsu, Relógio D’Água

Quando li esta passagem em “Lealdade”, livro escrito por Hua Hsu, sorri. Aos 34 anos, sei que esta perceção, em certa medida, me mudou a vida. Os seis anos de estudos universitários trouxeram-me dificuldades que não antecipara na adolescência. Divórcio, abandono e morte eram palavras que me acompanhavam pelas ruas de Lisboa. Nesses anos, mudei. Mudei tanto que, a certa altura, deixei de me reconhecer. Acredito que, por isso, as palavras da minha avó ressoavam como uma inevitabilidade. É muito difícil encontrarmos alguém no labirinto que permeia a nossa individualidade, quando nós próprios, como figuras mitológicas, permanecemos perdidos. É possível entrar, mas é mais fácil sair quando o caminho familiar é ainda visível.

Talvez por isso tenha apreciado a narrativa de “Lealdade”, um livro de memórias que é muito mais do que o retrato de uma amizade. É também uma reflexão sobre a emigração, o sentido de identidade, os meandros de uma língua que deixa gradualmente de nos pertencer. Hua Hsu, cujos pais são oriundos de Taiwan, começa por descrever uma viagem de carro, a leveza dos gestos, a familiaridade que carregam os passageiros, amigos do narrador. O foco é colocado em Ken, aquele que se tornará o melhor amigo de Hua Hsu. Tudo nos faz lembrar a juventude, que o autor apelidou como “a busca desta espécie de pequena imortalidade.” E percebemos o motivo. Hua Hsu sentia-se como alguém diferente, um jovem que procurava respostas em livros e em álbuns de música, que analisava de forma febril as letras dos Nirvana e fazia “fanzines” numa procura incessante pela sua própria identidade. E, quando o autor perde um dos amigos mais importantes da sua vida, encara o luto e a dor, sendo obrigado a integrar a ausência na sua vida, na sua personalidade, no seu significado.

O livro está repleto de reflexões sobre a natureza da amizade. Nota-se que Hua Hsu passou grande parte da sua vida a pesquisar e a ler sobre este tipo peculiar de relação. “A amizade tem que ver com a vontade de conhecer, mais que ser conhecido.” Mas ser conhecido é também “o sentimento de estar exposto e transparente.” A aquisição de amizades ocorre em situações particulares das nossas vidas, momentos carregados de “eventos”, como os que envolvem intrigas ou que exigem que alguém tome um partido, em sessões de estudo ou até de exames. O desafio está em conseguir ultrapassar estes períodos e querer conhecer o outro, partilhando momentos cândidos, como um simples serão, uma conversa ou uma ida ao supermercado.

Hua Hsu desconhece se algumas das amizades que são retratadas neste livro, especialmente com Ken, se manteriam no futuro. O que o autor sabe é que escrever sobre esses tempos e sobre essas pessoas lhe deu um sentido de identidade. Através da escrita, o autor quis, de facto, conhecer o seu amigo, e acabou por descobrir coisas sobre si, um reencontro talvez inesperado. O luto de uma amizade - quer seja um amigo que se afastou, quer seja porque a pessoa desapareceu - é, amiúde, não tão valorizado como a perda de um familiar ou de um(a) companheiro(a), mas, tal como Hua Hsu nos mostra, não deve ser desprezado.

Há dias, uma amiga minha de infância, com quem eu ia comprar os rebuçados nos intervalos da escola, pediu-me para falar comigo. A mensagem no telemóvel transparecia alguma urgência. Fiquei apreensiva. Teria acontecido alguma coisa? Quando falámos, convidou-me para algo que me emocionou. Acrescentou: “mesmo que já não falemos tanto quanto antes, continuas a ser a minha amiga preciosa, que mantenho no coração.”

Demorei muito tempo a fazer novos amigos. E sei que o fiz porque encontrei, há uns anos, algumas pessoas que mudaram a minha vida porque quiseram, de facto, conhecer-me. Estas pessoas sentaram-se, perguntaram-me quem eu era, o que me fazia rir ou chorar, e não me julgaram. Essa, segundo Hua Hsu, é uma das premissas para a amizade: a vontade de conhecer o outro. Essas pessoas salvaram a minha vida adulta, pois sem elas estaria muito mais só.

“Lealdade” foi traduzido para português do “Stay true”, uma frase repetida por Ken a Hua Hsu. Acho que ambas são importantes, mas “stay true” lembra-me que permanecer verdadeiramente interessada em alguém é uma das premissas mais importantes para tentar que o vaticínio da minha avó não se concretize. E recordo-me de uma Teresa mais pequena, ajoelhada sobre a colcha florida, de mãos entrelaçadas, suplicando:

“Por favor, não te deixes concretizar.”

Nota: “Lealdade” foi lido em dezembro de 2023, traduzido por Nuno Batalha e publicado pela “Relógio D’Água.”

Comment

O Quarto do Confinamento

June 20, 2023 Teresa Tomaz

De tempos a tempos, sonho com o meu primeiro quarto. Era um quarto comum, de paredes brancas, estantes de madeira com livros infantis e peluches, uma cama com uma colcha colorida. Foi aí que aprendi a cadência da respiração. É muito vívida a memória de, no escuro, pousar o olhar no guarda-fatos e perceber que o coração batia sem rumo, sem ritmo, os pulmões incapazes de acompanhar os órgãos confusos. Algo se estragou dentro de mim, pensei. E era irreparável, esse estrago. Há algo que parte assim que percebemos que não controlamos o corpo, um veleiro que naufraga, a inocência afundando-se. Este foi o início da minha reclusão interior, o confronto com a violência contida no organismo que vive em comunhão com os outros, mas também irremediavelmente isolado, um bivalve incrustado numa rocha.

O sonho mais comum é aquele em que, certo dia, atravesso a avenida, ganho coragem e toco à campainha do prédio, peço a quem agora ali vive que me deixe entrar na casa onde vivi durante quase uma década, onde disse as primeiras palavras, onde comecei a andar, onde vi o meu gato pela primeira vez, não o abraces com muita força, ainda é pequenino, onde recitei as orações que a minha mãe me ensinava na varanda do meu quarto enquanto recolhia a roupa, apressada,

santa Bárbara bendita,
que no céu está escrita,

peço que me deixe ver uma última vez o quarto onde ouvi o som de um tiro, seco, como um trovão, o pânico da minha mãe, a vizinha que me costumava afagar o cabelo, as nossa varandas juntas, como gémeas no ventre, a vizinha abandonando o apartamento, o marido morto, os hematomas escondidos debaixo do avental, a polícia, as sirenes,

com papel e água benta,
livrai-nos desta tormenta.

A recordação desse quarto visitar-me-á em dois mil e vinte, repetidas, incontáveis vezes. A minha mãe conta a história que, naquele dia, éramos três em casa, o meu avô aproveitara a feira semanal para nos visitar. Quando ouviram o tiro, a minha mãe ficou lívida, estarrecida, mas o meu avô, habituado à violência, às guerras, sentiu curiosidade, queria ver o que se tinha passado no outro apartamento. A minha mãe foi a primeira a encontrar a vizinha, ambas chamaram a polícia, e o meu avô, inquieto, queria sair do quarto, mas ali ficou, comigo. A violência só pode existir fora de casa, nunca dentro das nossas paredes, disse. Se deflagra no interior, tens a tua casa destruída.

É nisso que penso quando regresso do trabalho. Estou certa de que fabriquei as palavras do meu avô, a memória nunca é tão minuciosa, o meu avô nunca teve um discurso tão eloquente. As ruas estão vazias, foi decretado o estado de emergência. Quando entro em casa, procuro deixar a violência lá fora. Porque são violentos, esses meses, e serão violentos durante anos. Retiro as roupas, dispo-me, entro no chuveiro, lavo-me, vou para o quarto. Da minha janela, eu e o meu gato assistimos à dança das árvores. Observamos o modo como se enchem de folhas verdes, indiferentes à estagnação que se sente. Porque é isso que se sente, estagnação, a atmosfera eletrizante que antecede

as trovoadas
que no céu andam armadas,
lá na serra do Marão,
onde não haja palha nem grão,
nem meninos a chorar,
nem galos a cantar

nem pessoas que, como a minha vizinha, se veem obrigadas a ficar em casa, a violência presa no interior, a minha mãe sempre me disse que se devem manter as casas abertas para que o trovão entre e saia em segurança, se as fechamos o trovão fica lá dentro.

Altas vozes vão no céu.
Valha-nos a Divindade.

Não sei o que nos vale. Nesses primeiros meses, a vontade de arregaçar as mangas é muita, ainda que a incerteza impere. Nada apagará a recordação de caminhar pelas ruas vazias, como se estivéssemos a cometer uma infração, ainda que tenhamos o cartão da ordem na carteira, ainda que tenhamos uma autorização que colocamos no carro. O céu parece sempre amarelado, carregado de tempestades. Pedem-nos para fecharmos as portas, para resguardarmos os que precisam de cuidados, aqueles que são frágeis, pedem-nos para vestirmos fatos, usarmos luvas, desinfetante, as minhas mãos enchem-se de cortes e de hemorragias que não estancam, pedem-nos que liguemos às pessoas que estão doentes, assustadas, infetadas, a voz perdendo a intensidade entre acessos de tosse, há sangue hoje, doutora, envio cartas por email, referenciações para o serviço de urgência, penso nos colegas que não dormem nos hospitais, no cansaço, ligo no natal, no ano novo, na páscoa, nos aniversários, tudo isso perde o significado, às vezes rimo-nos, feliz natal, às vezes choramos, há sempre alguém que não atende o telefone no dia seguinte, tememos saber a razão.

Sonho amiúde com incêndios. Lembro-me das palavras de José Luís Peixoto misturadas com as de Anabela Mota Ribeiro,

Compreendemos que deflagra um inocência que nos impede de continuar, que engole os prédios, as ruas, as árvores, as pessoas.

O som da respiração enchia o quarto. Os meus pulmões, fracos, entre as costelas, esvaziavam-se de ar. A escuridão, dentro de mim, em todo o mundo, sufocava-me lentamente.

O livro que mais recordo neste período é “As Aves não têm Céu”, de Ricardo Fonseca Mota. Li muitos outros, antes e depois, mas este foi o que perdurou na minha memória. Sonhava com a sua capa, com os pássaros sem céu. Nós éramos os pássaros sem céu.

Alguns profissionais de saúde definem os piores meses da pandemia COVID-19 como Anabela Mota Ribeiro descreveu em “O Quarto do Bebé”: “tempos de guerra”. E eu que, tal como Susan Sontag, não aprecio metáforas militares, recordo esses meses como a música “Untitled #8 - Popplagið”, de Sigur Rós: a melodia delicada nos primeiros segundos, a esperança, as frases repetidas como um verso até se desbotarem, gastas, como os desenhos que perdem cor nas janelas sujas e cansadas, os

vai ficar tudo bem,

e, por volta do sétimo minuto, o algarismo que carateriza a criação, sete, a voz de Jónsi altera-se, grita, ribomba como os trovões que santa bárbara tenta combater, a bateria irrompe e domina a música, violenta.

Este texto não é um elogio ao papel dos profissionais de saúde durante a pandemia COVID-19. Na verdade, tal como muitos verbalizam - enfermeiros, psicólogos, farmacêuticos, médicos, assistentes operacionais, técnicos superiores, secretários clínicos, entre outros - não pensamos muito nesses tempos. O livro de Anabela Mota Ribeiro obrigou-me, no entanto, a analisar esses meses. E ela está certa: há violência nessas memórias e na certeza que, quando voltar a acontecer algo semelhante, repetir-se-ão atitudes e que não aprendemos nada, absolutamente nada, pois continuaremos, mal o trovão chegue, a rezar a santa Bárbara,

Santa Bárbara bendita,
Que tens a palma na mão,
Pede a Nosso Senhor
Que não mande mais trovão.

É evidente que “O Quarto do Bebé” é muito mais do que um diário do confinamento. Mas a sua leitura levou-me a gavetas de cómodas que já não abria há muito, como se, nos meus sonhos, voltasse a ser a criança que navega num quarto que já não é o seu, mas que imagina ser, porque se recorda de todos os pormenores, do local onde estava a cama, onde pousaram borboletas peludas durante a invasão dos insetos na década de noventa, onde brincava com um gato que há muito partiu, onde rezou a santos, convencida que, se não o fizesse, o coração dispararia de novo, onde brincava sozinha, onde ouvia a voz amável da vizinha, onde imaginava vir a ser muitas coisas, sem saber que, anos mais tarde, estaria isolada no quarto de outra cidade, com outro gato, uma Teresa distinta de tantas outras Teresas que habitaram, até hoje, nove quartos diferentes, sabendo, no entanto, que se um relâmpago cruzar o céu começará a recitar, inconscientemente,

Santa Bárbara bendita.

Comment
← Newer Posts Older Posts →

Powered by Squarespace